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Elogio ao monoglota, artigo de Clóvis Rossi, um anti-Lula convicto e que tenta disfarçar o seu preconceito

(por Clóvis Rossi, de Lisboa) Enfim, encontrei alguém que elogia o fato de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ser monoglota.

E não é um qualquer. Trata-se de Mário Soares, ex-presidente e ex-primeiro-ministro de Portugal, um dos líderes da resistência à ditadura salazarista (1932 a 1974, sendo que, a partir de 1968, quando o ditador ficou incapacitado, passou o posto a Marcelo Caetano).

O elogio, aliás, vem acompanhado de uma leve ironia com Fernando Henrique Cardoso, que faria a delícia de Lula:

“Lula tem a grande vantagem de só falar português, enquanto Fernando Henrique falava todos os idiomas e falava [em visitas oficiais] no idioma dos outros, ao passo que Lula leva o português a todas as partes”, diz Soares.

A ironia, eu até compartilho. Conto um episódio que acompanhei: uma vez, FHC falaria a uma comissão do Parlamento Europeu, em Bruxelas. Perguntou ao presidente da comissão (um espanhol) em que idioma deveria falar. O anfitrião mostrou com as mãos as bandeiras de todos os então 15 países da União Europeia, lembrou que todos os idiomas dos 15 eram oficiais, “inclusive o português”.

Fernando Henrique falou em português, mas respondeu a uma pergunta de um deputado irlandês em inglês, de um representante espanhol em espanhol e de um deputado belga em francês (em francês, mas não em flamengo, que FHC não fala “todos os idiomas”, ao contrário do que brincou Soares).

Já o elogio ao fato de Lula ser monoglota, não o acompanho, não. Tampouco acompanho a crítica a esse fato, quando ela é preconceituosa.

Já escrevi na Folha, bem antes de Lula ser popular e ser presidente, que, se os doutores que governaram o país durante 500 anos, deixaram-no do jeito que está, não seria um operário que faria um mal maior. Acertei, o que é raro, mas acontece.

O problema é que Lula ganharia, até como pessoa física, se falasse pelo menos o inglês. Exemplo objetivo: a brincadeira do presidente Barack Obama com o colega brasileiro, aquela história de “my man”, que traduzimos por “é o cara”.

Lula não entendeu inicialmente a brincadeira. Dependeu da tradução de Sérgio Ferreira, que o acompanha há séculos, e é absolutamente brilhante. Mas piada que precisa, primeiro, ser traduzida evita a resposta bem-humorada que Lula poderia dar se a entendesse de saída.

Como governante, em todo o caso, o fato de ser monoglota não impediu que Lula se transformasse, internacionalmente, na figura do momento. Pode até ser fugaz, nestes tempos em que tudo se consome muito velozmente, de comida a jogadores de futebol. Que aproveite, então, o máximo que puder.

*Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de “Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e “O Que é Jornalismo”.

Fonte: Folha Online

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